Retrato em preto e branco

Relatório do PNUD revela um país racista, que mantém os negros na exclusão e confisca o direito à vida  (Trechos da matéria)

Ana Carvalho – Revista Isto É

O Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil 2005 – Racismo, Pobreza e Violência – do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), lançado na sexta-feira 18 em São Paulo, concluiu que em todas as áreas de desenvolvimento humano, renda, educação, saúde, emprego, habitação e violência, os negros estão em situação desfavorável. Mas o maior objetivo do estudo é promover uma ampla reflexão no governo e na sociedade a fim de se perceber que o racismo é uma tenebrosa barreira que trava não somente o desenvolvimento, mas o direito à vida.

Apesar de representarem 44,7% da população brasileira, os afrodescendentes estão entre as principais vítimas da desigualdade socio econômica. A proporção de negros que vivem em favelas e palafitas é quase o dobro da dos brancos. Além de excluída da renda e dos serviços básicos, outro resultado de 300 anos de escravidão é a sub-representação dos negros nos espaços de poder (Executivo, Legislativo e Judiciário). O mesmo acontece na máquina administrativa do Estado e no mundo do trabalho. Levantamento feito entre as 500 maiores empresas do País mostra que apenas 1,8% chega a cargos executivos.

Dados apontam que são os negros – principalmente jovens, homens e solteiros – os principais alvos de homicídios, sendo a taxa duas vezes maior do que a verificada para os brancos. Em alguns locais, chega a ser seis vezes maior.

Como se não bastasse ser a maior vítima dos criminosos, os negros também sofrem nas mãos da polícia. O peso desproporcional de negros vitimados pela polícia em operações, constitui, segundo o relatório, indícios de comportamento racista “nos aparelhos de repressão”. No entanto, a PM tem se mostrado um caminho de ascensão social, de oficiais a praças. Os negros são maioria no efetivo policial. Apesar dessa presença, as taxas de mortos pela polícia para cada 100 mil são de 1,3 para brancos, 2,4 para pardos e 10,8 para os negros.

A solução apontada pelo relatório, que ressalta a violência contínua, cabe ao Estado e, por tabela, à sociedade. Duas formas de políticas públicas são defendidas: as universais, aplicadas sem distinção, e as focalizadas. Essas seriam ações afirmativas, de reparação, capazes de melhorar, através de instituições, as oportunidades e os níveis de bem-estar de uma comunidade em constante desvantagem.

SEXTILHAS enviadas pelos leitores:

JOSÉ DE CASTRO (RN):

Relatório do PNUD
Traz retrato em branco e preto
Mostrando que o homem negro
Está sempre em um gueto
Vive sempre em desvantagem
Com injustiça e desrespeito.

Quando preso é espancado
Se no emprego é demitido
Sua vida é um inferno
Negro é sempre oprimido
Mesmo sendo homem de bem
Sempre o vêem qual bandido.

Preconceito rói por dentro
Faz sangrar o nosso peito
Vamos defender o negro
Respeitar o seu direito
Cor da pele não é status
E ser negro não é defeito.


Candido Tertuliano (PB)

No Brasil não há racismo
Aqui tudo é igual
É o que nos diz o povo
Parece tudo banal
Tá na lei, na maior carta
Um a um é pau a pau

Quando vamos pra real
Agente vê diferente
Não é bem como se fala
Nem o negro tá contente
Ta bem limpo, tá na cara
Por dentro é que ele sente

Basta ver a moradia
Assistência social
Agente logo percebe
tudo é tão desigual
branco sempre mora bem
negro sempre mora mal

Basta ler o relatório
Que a Onu divulgou
Para a gente perceber
Que aqui nada mudou
Tudo está quase igual antes
O negro não alcançou

Uma condição melhor
Pouco êxito logrou
Continua sem acesso
A escola e ao doutor
Herança da escravidão
Foi tudo que lhe restou

Da era colonial
Pouca equidade sobrou
O branco sempre explorando
tudo que aqui ficou
a mão de obra do negro
é dada pouco valor

mais não é só no salário
que as coisas são assim
diferença entre irmãos
sempre doeu forte em mim
algo precisa ser feito
para mudar este fim

um esforço concentrado
pra banir desigualdade
atitude afirmativa
estado e sociedade
não podem se omitir
tem que agir de verdade


Braulio Tavares (RJ)

A elite brasileira
morre e não sabe o que é.
É leite que pinga aos poucos
num bule cheio de café,
não dou cem anos que esteja
da mesma cor da "ralé".


Dilsom Barros (PB)

O relatório da ONU
Provou a realidade
O racismo no Brasil
É mal da sociedade
A Democracia Racial
Nunca existiu de verdade

A sociedade aceita
Desrespeita o decreto:
Se são todos iguais
Porque muitos não têm teto?
O Racismo aqui tem nome:
Preto, Pobre e analfabeto.

A Universidade barra
Mesmo os que sabem ler;
Quando procura emprego
Outro NÃO vai receber;
O capital lhe rejeita
Fecha os olhos pra não ver.


Messina Palmeira (PB)

Estudos do PNUD
Já sabe todo o Brasil
Negro aqui não tem vez
Confirma o imbecil
É coisa corriqueira
De nosso Brasil varonil


Medeiros Braga (PB)

Temos uma mesma orígem,
Seja por bíblia ou ciência,
O preto, o branco, amarelo
Têm uma só procedência,
E se não fosse era injusto
Negar a alguém a decência

O grande Joaquim Nabuco
Na trincheira em aclamação,
Sempre ao lado da justiça,
Defendia a abolição
Junto com reforma agrária
Para dar mais condição.

Salve sua boa intenção,
Porém, pra romper o abismo
Do preconceito que cresce
À luz do capitalismo
Só ocorrerá com a partilha
Que rege o socialismo.

A discriminação maior
Que há na sociedade
Vem da renda distribuída
Com grande desigualdade,
Criando assim poderosos
Que massacram a humanidade.


Este blog é dedicado a
LEANDRO GOMES DE BARROS
(1865-1918)
no 140. aniversário do seu nascimento.
19 de novembro de 2005

Poeta como Leandro
Inda o Brasil não criou
Por ser um dos escritores
Que mais livros registrou
Canções, não se sabe quantas
Foram seiscentas e tantas
As obras que publicou

No dia de sua morte
O céu mostrou-se azulado
No visual horizonte
Um círculo subdourado
Amostrava no poente
Que o poeta eminente
Já havia se transportado


João Martins de Athayde