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Entre
o luxo e a hostilidade
27/11/2005 
Rodrigo França Taves
Enviado especial BELO HORIZONTE.

Seis meses depois do início da crise que abalou
o governo Lula, o homem que operou o valerioduto e todo
o esquema de pagamentos a políticos com a cúpula
do PT ainda usufrui do conforto de sua vida de milionário.
Apesar de ter uma conta com R$ 1,8 milhão na agência
mineira do Banco de Boston bloqueada por ordem do Supremo
Tribunal Federal (STF), Marcos Valério Fernandes
de Souza está fazendo uma grande reforma em sua
casa no bairro Castelo, em Belo Horizonte, andando pela
cidade em carros importados e gastando verdadeira fortuna
com os cinco advogados que contratou, entre os mais famosos
e mais caros de Minas. Uma assessora de imprensa exclusiva
se encarrega do contato com jornalistas.
Valério perdeu todos os contratos de publicidade
com estatais como Banco do Brasil e Correios, suas galinhas
dos ovos de ouro, mas do ponto de vista financeiro aparentemente
não sofreu abalos. Na verdade, até ampliou
seus gastos após o escândalo: contratou
a firma de segurança de um delegado de polícia
de Uberaba (MG) para proteger a casa no luxuoso condomínio
Retiro do Chalé, a 40 quilômetros de Belo
Horizonte, onde mora com a mulher Renilda e os dois filhos.
O condomínio, que já tem forte segurança
armada, tentou impedir a entrada dos homens da Moura
Vigilância mas foi obrigado a aceitar a companhia
indesejada.
— Valério conseguiu autorização
da Polícia Federal para a segurança própria
e nada pudemos fazer — disse o morador Oswaldo
Drumond, o Vavá, diretor de segurança do
condomínio.
Paredões altos e vigilância dobrada
Renilda abriu um processo contra o condomínio
por não ter impedido a entrada de jornalistas
quando as denúncias começaram a aparecer.
Na casa, permanentemente vigiada pelos seguranças,
Valério montou amplo circuito interno de TV, com
câmeras em diversos cômodos, cerca elétrica
e sistema de alarme completo. Mas nada se compara à fortaleza
em que transformou sua casa do bairro Castelo, onde cerca
de 20 operários estão construindo uma sauna,
ampliando a piscina e concluindo a reforma geral. Muros
de cinco metros de altura e uma guarita com seguranças
dão à casa a aparência de um presídio
bem vigiado. Por cima dos paredões de concreto
só é possível ver o telhado.
Além do inquérito em tramitação
no STF para apurar o esquema do mensalão, o empresário
e seus ex-sócios das agências DNA Propaganda
e SMP&B Comunicação respondem a nove
ações de execução movidas
pelos bancos Rural e BMG para cobrar os empréstimos
que fizeram, supostamente para repassar o dinheiro ao
PT. Ao todo, os bancos cobram R$ 55 milhões com
juros e correção monetária. Nada
que abale Valério. Antes mesmo de o escândalo
estourar, ele transferiu seus imóveis para o nome
dos filhos Nathalia e João Victor, inclusive os
terrenos onde hoje estão as pistas de salto do
Centro de Preparação Eqüestre da Lagoa
(Cepel), e uma sala comercial. Com isso, Valério
não corre sequer o risco de ter o patrimônio
penhorado para pagar dívidas.
Os únicos que se deram mal, por enquanto, foram
seus sócios na DNA, na SMP&B e na MultiAction
Entretenimentos, que estão sendo obrigados a fechar
as empresas diante da forte rejeição do
mercado à exposição negativa na
mídia, e o cavaleiro Pedro Paulo Lacerda, o dono
do Cepel, onde Valério guardava seus 13 cavalos
de competição. Segundo Lacerda, Valério
levou os cavalos para a fazenda de um amigo alegando
ter de reduzir despesas. Foi embora inclusive a égua
Petra Z, com a qual o cavaleiro disputava competições
profissionais. Só ficou no Cepel um dos cavalos
montados por Nathalia, campeã brasileira mirim
de saltos. Lacerda está sem cavalos para disputar
as competições e teve de demitir dez dos
40 funcionários do Cepel. Valério, porém,
sequer mencionou a hipótese de se desfazer dos
terrenos da hípica.
Mas se do ponto de vista financeiro a vida do operador
do mensalão continua sem grandes problemas, pessoalmente
ele tem passado por situações constrangedoras.
Na semana passada, a agência de publicidade Libra
Comunicação espalhou outdoors por Belo
Horizonte com a fotografia de uma carequinha igual à de
Valério com o desenho de uma mão espalmada
na nuca, como se o empresário estivesse levando
um tapa. Ao lado, a inscrição: "Agência
de mãos limpas não tem nada a temer".
A campanha deverá ser estendida a TV, cinema,
rádio e jornais. Desde que estouraram as denúncias,
Valério e Renilda evitam lugares públicos
para não serem hostilizados. Valério deixou
de aparecer em seus restaurantes preferidos e Renilda
só sai de casa com um penteado diferente e óculos
escuros.
A rotina do operador do valerioduto praticamente resume-se
a despachar com os advogados no escritório que
mantém na Tolentino & Melo Assessoria Empresarial,
empresa de lobby da qual é sócio com os
advogados Rogério Tolentino e José Roberto
Moreira de Melo. Lá, ele lê diariamente
o noticiário sobre o valerioduto e sempre convoca
a assessora de imprensa Cláudia Leal para escrever
notas contestando declarações de parlamentares
das CPIs ou de envolvidos no escândalo. Na sexta-feira,
divulgou nota repudiando afirmação do governador
Aécio Neves de que teria repassado dinheiro público
ao PT. Não exerce atividade remunerada, quase
não recebe visitas ou telefonemas e sua relação
com os ex-sócios, exceto Tolentino, é muito
ruim, embora ainda se encontrem para tentar resolver
problemas.
— Ele já teve dias muito tristes, mas sempre
procura reagir. É uma pessoa tranqüila e
já está conseguindo lidar com tudo isso.
E sabe que o período dos holofotes está chegando
ao fim — diz a jornalista Cláudia Leal.
Deputados evitam contato com Valério
Há dois meses, Valério sofreu um baque
com a morte do pai, Adeliro. Os deputados mineiros, que
antes viviam pedindo favores e agora apagaram seu nome
das agendas dos celulares, não foram ao enterro.
Só estava presente o deputado federal Virgílio
Guimarães (PT), o conterrâneo de Curvelo
(MG) que apresentou Valério à cúpula
do PT. Ultimamente, o empresário recusa-se a dar
entrevistas e passa boa parte do tempo em casa. Parou
de sair para fazer cooper e dificilmente passeia
com os filhos. Nas primeiras viagens a Brasília
para depoimentos na CPI e na Polícia Federal,
foi de jatinho particular. Numa das vezes, chegou a voltar
de carro a Belo Horizonte, percorrendo 700 quilômetros
de estrada, para não pegar vôos de carreira.
Mas já foi visto embarcando em vôos regulares,
sob curiosidade geral.
A obsessão por privacidade não evitou
que há algumas semanas garotos do Retiro do Chalé reagissem
aos gritos de "ladrão, ladrão" ao
vê-lo baixar o vidro do carro para passar o crachá de
identificação na entrada do condomínio.
Valério foi embora sem reagir. Com Nathalia, de
14 anos, o problema foi mais grave. Colegas de colégio
passaram a hostilizá-la em sala de aula, obrigando
a família a pedir ajuda à direção
do colégio, que a mudou de turma.
SEXTILHAS enviadas pelos leitores:
P.S. Cerveira (RJ)
Povo levado da breca:
"Dinheiro traz felicidade"
Acreditou o careca
E o Rei da publicidade
Agora vai ter que gastar
Pra comprar liberdade.
Bela mansão construiu
Coisa de muita vaidade
Mas depois que mentiu
Não pode andar na cidade
A Tv mostrou pro Brasil
Preso ficou na propriedade.
E agora Seu Valério?
Coisa de menino, nesta idade
A vida não tem mistério
Povo não tem caridade
Conselho? Fala sério...
Me dá minha metade!
Graco Medeiros (PE)
Encontrei Marcos Valério
Lá pelas bandas do cais
Em plena Belo Horizonte
A capital das Gerais
Dizendo ser dos carecas
Que o PT gosta mais.
Em Belzonte não tem cais
Mentiroso e fariseu
Por isso que o PT
Para sempre se fudeu
Desde os tempos da derrama
E Marília de Dirceu.
O temba solto na rua
Já dizia Guima Rosa
Era amigo dos tucanos
Com PT tirava prosa
Mas no governo de Lula
Estourou a rebordosa!!!
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