07/09/2006 -
Da BBC Brasil
Austríaca mistura raiva e sentimento de culpa na TV

14h10-Natascha Kampusch, a garota
seqüestrada e mantida prisioneira por oito anos na Áustria,
misturou raiva e sentimento de culpa ao falar do seqüestrador
Wolfgang Priklopil em sua primeira entrevista à TV, transmitida
nesta quarta-feira no país.
Resfriada e
fechando constantemente os olhos por ainda ser muito sensível à
luz, Natascha disse que sabia que sua fuga iria condenar Priklopil
à morte. O seqüestrador cometeu suicídio depois que soube que
Natascha estava em liberdade.
“Sinto ter
transformado o amigo que o levou à estação de trem e o motorista
do trem em cúmplices deste assassinato", disse Natascha. "Também
não queria que a mãe dele ficasse conhecendo esse outro lado. Os
dois tinham uma relação boa e sinto por ela que o mundo tenha
ficado com esta imagem negativa de seu filho”, afirmou a jovem.
Sobre a fuga,
Natascha foi taxativa. “Se não fosse naquele momento, talvez eu
nunca tivesse outra chance. Um mês antes, eu já havia dito a ele
que não poderia viver mais assim e que tentaria fugir.”
Superioridade
Apesar ser
mantida prisioneira, Kampusch se via uma situação de superioridade
em relação a seu algoz. “Eu era mais forte que ele, pude desfrutar
de uma boa estrutura social na infância, algo que ele não teve.
Isto o tornou instável”, contou.
A menina conta
alguns direitos que conseguiu obter durante todo o período em que
esteve presa. “Festejei meus aniversários e datas como Natal e
Páscoa com o senhor Priklopil. Eu o obriguei a isto”, disse.
"Nos primeiros
dois anos, não tive acesso a nenhum tipo de notícia do mundo
exterior. Sobre as buscas da polícia, depois de algum tempo tive
acesso ao que se passava, pois disse a ele que era injusto eu não
saber sobre algo que me dizia respeito. Acho que ele tinha um peso
na consciência”, avaliou.
Depois de
passar os primeiros seis meses no porão, a jovem também ganhou a
permissão de entrar na casa do seqüestrador, o que foi muito
importante para sua saúde mental. “Se ele não tivesse me levado
para a casa, onde tinha mais liberdade de movimentos, acho que eu
teria ficado louca.”
Livro
Sua pretensão
agora é ter mais contato com a família dela, com quem afirmou ter
uma ótima relação. “Não sinto que perdemos oito anos de contato,
na nossa relação é como se isto tudo não tivesse acontecido. Os
próprios policiais me disseram que já tinham perdido as esperanças
de me encontrar. Minha mãe, não”, falou.
Outros desejos
de Kampusch são os de terminar os estudos, viajar com os parentes
e ajudar com doações a vítimas de seqüestro e da fome. A jovem
também não descartou escrever um livro contando sua história, mas
disse que não aceitaria que outra pessoa o fizesse. “Não quero que
alguém banque o especialista sobre minha vida.”
Sobre o enorme
interesse da mídia por sua história, a jovem disse que não se
preocupa em ver o que é reportado sobre ela, porque tem “muito a
fazer”.
Só disse ter
ficado chateada com a publicação de fotos do seu cativeiro. “Como
eu vivia não é da conta de ninguém. Em não abro os jornais
querendo ver fotos dos quartos das pessoas.”