17/09/2006 - 09h39
Letícia, vira-lata, assiste à missa no altar de
igreja em Pinheiros
FERNANDA CALGARO, da Folha de S.Paulo
Missa de domingo, batizado, casamento ou curso para
noivos. A vira-lata Letícia sempre está presente nas cerimônias
que acontecem na igreja da Cruz Torta, no Alto de Pinheiros (zona
oeste de SP).
O interesse dela, porém, não está nas celebrações,
mas, sim, em seu dono: o padre Ilson Frossard, 81. "Ela é minha
sombra", diz, sem exageros.
Bem à vontade e sem latir uma única vez, ela
circula pelo altar, olha para o padre, se coça, espreguiça, olha
mais uma vez para o padre, abana o rabo e passeia entre os fiéis -
alguns lhe fazem um afago. "Dá até uma descontraída na missa",
conta Gislene Machado, 35, que costuma assistir à cerimônia de
domingo ao lado do marido, Sidney Bant, 38. E se o freqüentador
quiser levar seu animalzinho? O padre não se opõe.
Com a pelagem branca, manchada de preto e rabo
peludo, Letícia não tem idade certa. "Ganhei-a já adulta há uns
seis anos. Ela tinha sido atropelada e estava sendo tratada na
veterinária onde levo os meus outros cachorros", relembra o padre,
que tem ainda outros oito cães --o décimo morreu há menos de um
mês.
Desde então, Letícia não desgrudou mais do dono.
Anda para todos os lados com ele e sem coleira. Cuidadosa,
atravessa as ruas movimentadas pela faixa de pedestre. "É mais
fácil eu ser atropelado do que ela de novo", brinca o padre.
Na visão da Arquidiocese de São Paulo, o gesto do
padre Ilson de permitir a presença da cachorra é visto sem
desrespeito nenhum. "É uma atitude muito bonita. Não há incômodo
nenhum nem atrapalha. Tem algo de franciscano mesmo", afirma o
padre Juarez Pedro de Castro, secretário de comunicação da
arquidiocese.