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O provinciano incurável
ou
Por que ler Cascudo?
Clotilde Tavares
Quando eu ensinava na Universidade Federal do Rio Grande
do Norte, ministrando a disciplina de Folclore Brasileiro,
cada um dos meus alunos tinha por obrigação
disciplinar ler um livro de Luís da Câmara
Cascudo e resenhá-lo. Como a minha intenção
era fazer com que o aluno descobrisse o prazer da prosa
cascudiana, eu deixava que eles escolhessem qual livro
queriam ler. A maioria escolhia “Prelúdio
da Cachaça”, tanto pelo título como
porque era um livro curtinho, com poucas páginas.
De qualquer maneira, todos liam Cascudo, e a possibilidade
de escolher o título a ser lido amenizava um pouco
a obrigatoriedade da leitura.
Qual era o meu objetivo?
Ora, durante o tempo todo que vivi fora da Paraíba,
e foram mais de trinta anos, sempre me vangloriei da auto-estima paraibana, e
sempre disse a todos que na Paraíba todo mundo sabe recitar “Versos Íntimos” de
Augusto dos Anjos, aquele soneto que começa “Vês? Ninguém
assistiu ao formidável enterro da tua última quimera…” Mesmo
que isso não seja verdade, eu gosto de acreditar que é, e considero
mesmo que a maioria dos paraibanos consegue a façanha. Então, nunca
aceitei de bom grado o fato de que, no Rio Grande do Norte, as pessoas não
conhecessem a obra do maior norte-rio-grandense do século.
Mas por que
ler Cascudo? Por vários motivos, cada um deles sozinho servindo
para justificar o ato da leitura. Para conhecer a cultura e a vida do estado,
e por tabela, do país. Para entender melhor a formação dos
nossos hábitos e costumes. Para compreender as manifestações
populares da nossa cultura e, compreendendo-as, apreciá-las de forma mais
completa. Para homenagear o escritor como um dos mais completos intelectuais
deste país, aquele que projetou mais alto e mais longe o nome do Rio Grande
do Norte e, por tabela, do Nordeste. E, finalmente, para se deliciar com o estilo
incomparável do mestre, que constrói ao longo dos seus textos verdadeiras
preciosidades literárias.
Citado por João Alves de Melo em “História
do Rio Grande do Norte”, quando fala sobre a antiga cadeia, situada na
praça André de
Albuquerque, depois de descrever a sua sombria estrutura, Cascudo acrescenta: “Detrás
das grades negras, os presos furavam a vida com olhares famintos.” Em “História
da Cidade do Natal”, referindo-se ao uso do açúcar: “O
sal era nativo. O açúcar é que era caro. Dizia-se o ‘doce’ como
sinônimo. ‘Quer mais doce?’ em vez de quer mais açúcar.
Usava-se a rapadura comumente, açúcar de panela, açúcar
moreno. Açúcar branco era guardado num frasco para remédio,
lambedores (xaropes) para tosse, adoçar chás, uma pedrinha contra
o soluço ou quando o menino mastigava pimenta malagueta sem querer.”
Em “Nomes
da Terra”, ao descrever nosso processo de colonização,
constrói um parágrafo que é o mais perfeito retrato daqueles
tempos, com força de filme em imagem digital: “É a odisséia
dos posseiros, homens sem títulos legitimadores de estabilidade. Vinham
do Ceará, da Paraíba, acompanhando os rios orientadores, Piancó,
Rio do Peixe, Pinharas, fundidos no Piranhas, tornado Rio do Açu, caindo
no Atlântico em Macau. Do Jaguaribe, colmeia de vôos emigrantes e
fecundadores pelo planalto do Apodi, onde se aninhariam onze municípios.
Fugiam outros do litoral e arredores urbanos, investindo o desertão, saco às
costas, facão à cintura, arma de fogo no ombro, seguido pela cunhã caçada
a casco de cavalo, o cachorro farejante, e lá ia plantar choça
de palha e taipa-de-bofete, matando onça a terçado e paiacu a tiro
de clavinote. Tangia um touro, duas vacas, casal de cabras puladeiras e o bode
de cavanhaque, bufando de importância. Chegava e ia ficando, colono de
si mesmo, alimentado pela esperança de sobrevivência.”
Falando
de si mesmo, o escritor constrói uma página viva e pulsante,
publicada em “A Província”, na edição comemorativa
aos seus setenta anos de idade e cinqüenta de atividade literária:
"Nasci
na rua das Virgens e o padre João Maria batizou-me no Bom
Jesus das Dores, Campina da Ribeira, capela sem torre mas o sino tocava as Trindades
ao anoitecer. Criei-me olhando o Potengi, o Monte, os mangues da Aldeia Velha
onde vivera, menino como eu, Felipe Camarão. Havia corujas de papel no
céu da tarde e passarinhos nas árvores adultas (...). Natal de
96 lampeões de querosene. Santos Reis da Limpa em janeiro. Santa Cruz
da Bica em maio. Senhora d’Apresentação em novembro. Farinha
de castanha e carrossel. Xarias e Canguleiros. (...). Tinha 13 anos quando veio
a luz elétrica. Festas no Tirol. Violão de Heronides França.
Livros. Cursos. Viagens. Sertão de Pedra e Europa.
“Nunca pensei
em deixar a minha terra. Queria saber a história de
todas as cousas do campo e da cidade. Convivência dos humildes, sábios,
analfabetos, sabedores dos segredos do Mar das Estrelas, dos morros silenciosos.
Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei o caminho que
leva ao encantamento do passado. Pesquisas. Indagações. Confidências
que hoje não têm preço. Percepção medular da
contemporaneidade.”
Foi assim que ele passou todos os seus 88 anos de vida.
Filho de família
importante, nunca se interessou por carreira política ou diplomática.
Dedicou-se a estudar as coisas do povo, que ele mesmo sabia ser uma material “economicamente
inútil”. É ele quem conta: “Filho único de
chefe político, ninguém acreditava no meu desinteresse eleitoral.
Impossível para mim dividir conterrâneos em cores, gestos de dedos,
quando a terra é uma unidade com sua gente. (...) Dois homens quiseram
fixar-me fora de Natal: Getúlio Vargas no Rio de Janeiro e Agamenon Magalhães,
no Recife. Jamais os esquecerei porque nada pedira. Alguém deveria ficar
estudando o material economicamente inútil. Poder informar dos fatos distantes
na hora sugestiva da necessidade. Fiquei com essa missão.”
E praticando
esta missão passou a vida, lendo, escrevendo, correspondendo-se
em várias línguas com intelectuais do mundo inteiro e atendendo
a gente de todo tipo que batia à sua porta, desde os humildes mestres
da cultura popular até chefes de Estado que, em visita protocolar ao Rio
Grande do Norte, sempre abriam a agenda para, antecedido pelos batedores, com
pompa e circunstância, fazer-lhe uma visita. Desciam das limusines oficiais
e subiam os degraus do casarão da Junqueira Aires para bater cabeça
ao mestre e prestar-lhe reverência. Cascudo, com igual alegria, recebia
a todos. Recebeu-me a mim, ainda estudante, no ínício da década
de 1970, quando bati à sua porta para conhecê-lo e pedir que autografasse
o “Dicionário do Folclore Brasileiro”, presente do meu pai.
Na presença do grande homem, fiquei muda, balbuciei algumas bobagens e
fui embora por pura timidez, sobraçando meu precioso volume, agora autografado.
Depois, já mais velha e menos tímida, voltei a freqüentar
o casarão para o beija-mão tradicional onde íamos todos
anos, em 30 de dezembro, aniversário do mestre. Nesse dia, dia de festa
na cidade, os bumbas-meu-boi, caboclinhos e congos vinham dançar na rua,
debaixo de sua janela, prestando-lhe homenagem.
É preciso ler Cascudo.
Os seus livros, lançados recentemente em
belas edições pela Editora Global, nos fornecem um panorama tão
vasto quanto profundo da nossa história cultural, e extrapolam os campos
da Antropologia, da Etnografia, da Sociologia e da História como, por
exemplo, “História da Alimentação no Brasil”,
que deveria ser leitura obrigatória para os cursos de Nutrição
e de Medicina. Mas são muito títulos. “Civilização
e Cultura”, “Literatura Oral”, o já citado “Dicionário
do Folclore Brasileiro”, “Vaqueiros e Cantadores”... São
quase duzentas obras publicadas, entre livros, plaquetes, outras publicações,
traduções.
Tudo sobre Cascudo – biografia, artigos bibliografia,
fotos - pode ser encontrado no site Memória Viva (http://memoriaviva.com.br/cascudo) criação
do jornalista Sandro Fortunato, que, apaixonado pela obra do mestre, criou também
o “Blog do Cascudo” http://memoriaviva.digi.com.br/cascudo/blog/)
, onde republica os artigos que Cascudo escreveu de 1939
a 1960 nas páginas
dos jornais “A República” e “Diário de Natal”.
A coluna intitulava-se “Acta Diurna”, era diária,
e foram publicados,ao todo, 1.848 artigos. Sandro Fortunato
posta um artigo novo a cada semana, e é possível comprovar a agudeza
das observações do mestre, como no último texto postado
no blog, datado de 11 de outubro de 1947 onde, com o título de “O
Direito de Não Ouvir”, trata do atualíssimo tema da poluição
sonora. Vejamos um trecho:
“Médicos e educadores sabem o que vem
a ser um ruído, um
rumor, um barulho e sua influência no sistema nervoso infantil e adulto.
(...) O rumor gasta a energia, dispersa a atenção, deseduca o sentido,
exaspera a percepção, desvia a mentalidade. (...) Não é possível,
num apartamento, abrir-se o volume de voz a um rádio e deixar um samba
abalando todo o edifício sob pretexto de que o dono do aparelho é livre
e não tem contas a prestar com as orelhas alheias, não é lógico
que toda a gente se interesse pelo mesmo programa e procure contagiar essa simpatia
pelo estridor instrumental ou vocal.”
Era esse Luís da Câmara
Cascudo, o provinciano incurável,
e é ele mesmo quem explica porque foi chamado assim: “ Em 1946
fiz parte de uma comissão enviada pelo Ministério das Relações
Exteriores ao Uruguai. Éramos três: Aluísio de Castro, Angione
Costa e eu, único sobrevivente. Voltando, contou-me Aluísio de
Castro que Afrânio Peixoto (escritor baiano), sabendo da expedição
cultural, dissera num leve riso: ‘E ele deixou o Rio Grande do Norte? Câmara
Cascudo é um provinciano incurável!’.
Encontrara meu título justo, real e legítimo. Provinciano incurável!
Nada mais."
Clotilde Tavares é escritora, editora, autora
dos livros “A Botija” e “A Agulha do
Desejo” e estudiosa da cultura popular.
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